Questiono-me imenso sobre que ideia vai ter a minha filha de mim quando crescer.
Lamentarei que tenha a mesma que eu tenho da minha mãe.
Enquanto filha sinto no coração o mal que se pode fazer a um filho. Bem sei que nada foi intencional e que apenas surge no âmbito de uma postura demasiado rígida, pela moral e bons costumes, as quais sempre pus em causa. Sempre porei em causa!!!
No entanto, não há dúvida que essa forma de ser e de estar me está entranhada na pele como se de um cheiro horroroso e impregnado se tratasse, daqueles que não sai nem com limão nem com os melhores anti-odorantes do mercado.
Incomoda-me sentir o quão distantes estamos, fazendo de conta que é o normal.
Dilacera-me sentir que não tenho boas recordações ou pelo menos as suficientes para a olhar com carinho.
Pergunto-me onde estará a nossa ligação de sangue... Que relação é esta invadida de raivas e frustrações antigas e alimentada de zanga...
A minha mãe está cheia de teorias em que acredita e defende com unhas e dentes, mesmo que sinta no seu íntimo que não fazem sentido. Uma delas é nunca elogiar os filhos estando eles por perto. E mesmo longe, os elogios são sempre atravessados por um MAS, como se: "gabei-te, estraguei-te".
Criticar-nos é o que sabe fazer melhor. Se não tem onde pegar, inventa. Tudo vale: as escolhas de adolescência, a compra de um adereço, o que vestimos e calçamos, a educação que damos aos nossos filhos, a compra de casa ou carro, o penteado novo ou a cor de cabelo, a forma como decoramos a casa, os bens supérfulos que na sua opinião não servem para nada, a toalha de mesa, os óculos escuros, as atitudes... a merda e o catano! (já tou a passar-me de raiva só de lembrar algumas situações concretas!!!)
É como se não soubesse viver de outra maneira, é como se a interacção connosco só fosse possível deste modo.
Não. Não lhe dou hipótese de se intrometer na minha vida. Aliás, sou tida como fria e dura, como rebelde e independente, precisamente por colocar limites.
Questiono-me sobre o mal, que eu e os meus irmãos, a fizemos passar... apenas vejo uma situação desagradável protagonizada pela filha mais velha há 25 anos. Mas isto não é desculpa. Afinal é com ela que apesar de tudo vai contando no dia a dia.
Chego muitas vezes à conclusão que foi, é e será frustrada enquanto filha.
No entanto se me deixo avançar no pensamento, alargarei a frustração para outras relações, de mulher, de mãe, de amiga, de profissional, de pessoa.
Tudo porque se guiou sempre pelo lado negativo da vida. Nunca se deixou levar pelas emoções porque "mais vale prevenir do que remedir" em relação ao sofrimento que os outros lhe pudessem causar.
Afinal de contas sofre diariamente com o que foi semeando... digo eu.
Dificilmente a minha mãe assumiria tal desfecho e dúvido que aguentasse viver com ele. Suicídio seria melhor solução, na sua cabeça.
Fico cheia de raiva quando me sinto igual a ela perante a vida e atinjo estadios de loucura e culpa quando percebo que não consigo posicionar-me de outra forma, como se estivesse atada de pés e mãos e fosse uma fatalidade reagir assim.
Não. Não quero ter nenhuma conversa séria, daquelas em que eu falo sobre o que sinto e procuro renovar a relação.
Não, porque não vale a pena. Esgotar-me-ei em vão.
Não, porque já o fiz imensas vezes. Ela acalma, coloca-se no seu lugar, mas ficamos num clima de tensão desnecessário. Fica sempre com noção que eu é que sou pavorosa como filha, poruqe lhe digo umas quantas verdades e porque a faço sofrer com isso.
Não, porque até os mais altos gurus disseram que não vale a pena.
Para a semana tenho-a cá em casa porque a minha filha está doente e eu não posso faltar ao serviço.
Até tremo só de imaginar o que vou (vai) sentir.